Pular para o conteúdo principal

Leitura #1 Blog Entre Livres et Histoires - 2021

 


"O que sustentava o inferno era só duas coisas: as almas dos mortos condenados e a ruindade dos vivos."

Frase retirada de umas das passagens do surpreendente livro "Fiados na esquina do céu com o inferno" do pernambucano @eurydonavio

Definido por alguns críticos como "Sertanismo fantástico", o livro de Eury é um convite ao mergulho no sertão nordestino na perspectiva da cultura, da linguagem regional, das crenças, bem como no comportamento dos personagens tão bem construídos pelo autor.

Sem dar muito spoiler, temos a história do Matador, homem atormentado por um pesadelo, que ao encontrar um sujeito esquisito (que ele chamará de La Ursa - personagem conhecido do carnaval de Pernambuco) em uma bodega na esquina do céu com o inferno", faz um pacto para matar o Atentador (ou o "cão Fazedor de Seca") " antes que acabe o dia de São José. Se conseguir cumprir sua missão, o Matador colocará um ponto final na batalha travada entre a chuva e a seca, trazendo a água de volta para a tão sofrida região.

Ao longo da história ele vai resolvendo suas pendências pessoais, desavenças e dívidas (fiados) devidamente anotados em sua caderneta. Tudo isso regado a muita cachaça, garrafadas, com direito a Indio bebedor de veneno de cascavel, quenga honesta e vários outros personagens bem peculiares.

.

.

.

Recomendo a leitura desta obra que possui personagens bem originais, uma narrativa fluida e em muitos momentos extremamente cômica. Destaco como um dos pontos interessantes deste livro a utilização de linguagem informal, bem carregada de imagens e muitos significados. Uma ótima oportunidade para conhecer a riqueza cultural e simbólica do sertão pernambucano.


Prêmios:

Com este livro, Eury Donavio ganhou,em 2019, o Prêmio Literário de Manaus e recebeu a menção honrosa do Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores.


Boa leitura!

Blog Entrelivresethistoires


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Colegas - Lygia Bojunga

Para o mês das crianças, "Livro Bacana"* Quando estava na frente da estante, procurando qual livro poderia indicar para este mês das crianças, não tive a menor dúvida de qual deles escolher: Os Colegas , de Lygia Bojunga.  O primeiro livro dessa escritora gaúcha, ganhador de vários prêmios, dentre eles o prêmio Jabuti, é um dos meus livros favoritos da vida. Motivo? Eu só o conheci na fase adulta e ele tocou profundamente a criança que existe em mim.  Essa obra-prima da literatura infantojuvenil brasileira tem como pano de fundo a nossa tradicional e popular festa de Carnaval e o mundo circense. Além disso, as personagens principais são animais, o que dá o tom de fábula para história. Assim, somos apresentados aos cachorrinhos Virinha, Latinha e Flor-de-lis; ao coelho Cara-de-pau e ao urso Voz de Cristal.  Por intermédio da sua descrição física e psicológica, as personagens vão sendo construídas por Bojunga, dentro do universo ficcional. No decorrer da narrativa, o leitor...

A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece nos olhos das mulheres a lua fêmea, semelhante nossa, em vigília atenta vigia a nossa memória. A noite não adormece nos olhos das mulheres, há mais olhos que sono onde lágrimas suspensas virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças. A noite não adormece nos olhos das mulheres vaginas abertas retêm e expulsam a vida donde Ainás, Nzingas, Ngambeles e outras meninas luas afastam delas e de nós os nossos cálices de lágrimas. A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher de nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tônico pacientemente cose a rede de nossa milenar resistência. Conceição Evaristo*, em Cadernos Negros, vol. 19. *Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1946). Romancista, contista, poeta, professora e doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Criou o conceito escrevivência, ou a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, da experiência de vida da própria a...

Acerca da Biblioteca de Português da Sorbonne Nouvelle

Para Borges, o paraíso seria uma espécie de biblioteca [1] . Toda vez que penso nessa frase, a Biblioteca de estudos portugueses, brasileiros e da África lusófona, também conhecida como Biblioteca de Português, me vem à mente. Localizada no emblemático Quartier Latin de Paris, no prédio da Sorbonne, abriga um dos maiores acervos sobre os países lusófonos da França [2] . É uma biblioteca com história secular, testemunha do interesse pelos estudos brasileiros na Europa e da intensa troca entre homens de letras e intelectuais dos dois lados do Atlântico. Ela possui nas suas estantes mais de 25000 títulos, divididos em diversas áreas do conhecimento: língua, literatura, civilização, história, geografia, etc. Tive a honra de trabalhar como assistente de biblioteca naquele lugar durante alguns anos do meu doutorado, entre 2015 e 2018. Período que foi marcado por encontros com livros e com pessoas que aguçaram meu espírito e enriqueceram profundamente minha vivência acadêmica. Entre um encon...