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Os Colegas - Lygia Bojunga

Para o mês das crianças, "Livro Bacana"* Quando estava na frente da estante, procurando qual livro poderia indicar para este mês das crianças, não tive a menor dúvida de qual deles escolher: Os Colegas , de Lygia Bojunga.  O primeiro livro dessa escritora gaúcha, ganhador de vários prêmios, dentre eles o prêmio Jabuti, é um dos meus livros favoritos da vida. Motivo? Eu só o conheci na fase adulta e ele tocou profundamente a criança que existe em mim.  Essa obra-prima da literatura infantojuvenil brasileira tem como pano de fundo a nossa tradicional e popular festa de Carnaval e o mundo circense. Além disso, as personagens principais são animais, o que dá o tom de fábula para história. Assim, somos apresentados aos cachorrinhos Virinha, Latinha e Flor-de-lis; ao coelho Cara-de-pau e ao urso Voz de Cristal.  Por intermédio da sua descrição física e psicológica, as personagens vão sendo construídas por Bojunga, dentro do universo ficcional. No decorrer da narrativa, o leitor...

Ou Isto ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo … e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. Cecília Meireles (1901 – 1964)  Além de ser considerada uma das maiores poetas nacionais, ela também se destacou no campo da literatura infantojuvenil. O poema acima foi publicado na obra homônima Ou Isto ou Aquilo (1964) e na sua composição contém um ensinamento fundamental acerca do modo como a vida funciona, ou seja, ao longo da nossa história de vida, somos constantemente obrigados a fazer escolhas. Co...

A bordo do Clementina e depois

A bordo do Clementina encontramos o tempo e o depois. A travessia realizada através dos olhos e dos sentidos de Solange circunscreve o tempo e seus sucedâneos como personagens principais, a transitoriedade, as perdas, a escrita, os encontros, a morte, as colheitas, as estações. Solange conta a história de uma vida atravessada por muitas outras, metáfora de um Brasil que se constitui em múltiplos retalhos e cores. A bordo, afirmamos o que não vimos. O barco está sempre em movimento e nele a resposta para o enigma é o salto para a poesia. Todavia, seu salto é amparado em uma rede de outros escritos, das cartas de Tia Dália, dos gestos testemunhados em família ou ainda transmitidos, ainda que não revelados. O texto escrito a bordo do Clementina tem balanço, às vezes, as palavras, surfam, flutuam ... outras afundam em sua densidade e segredos; histórias que esperávamos encontrar mais adiante solucionadas, mas que são deixadas para o trabalho dos escafandristas, depois. Assim, os gestos que...

Separação

Eu me separei do meu passado Eu me separei da primeira pessoa Eu parti partido e me reuni à parte. Eu me separei do gran-finale Eu me separei do mundo caduco Separei a pessoa do personagem Eu me separei do crochê da vingança Eu me separei de velhos inimigos Eu me divorciei da culpa Rompi com os movimentos separatistas Minha cabeça resolveu me dar as costas Meu corpo pediu separação de corpos Eu me separei da casa própria Eu me separei do nome próprio Eu me separei da própria idéia de separação Augusto Massi

Sobre esqueletos esquecidos da História: silêncio e verbalização

Dizem por aí que, mesmo nas melhores famílias, há um esqueleto escondido no armário, trancafiado a sete chaves, condenado ao limbo do esquecimento e do silenciamento. No domínio da literatura, esse assunto-tabu - visto como incômodo a ser evitado ou como herança dolorosa não verbalizada -, constitui um convite ao desvelamento através da palavra e à abertura saudável para que novas gerações não carreguem o peso do que permaneceu cristalizado nos porões da memória. No romance Elle s’appelait Sarah (2007), que deu origem ao filme traduzido no Brasil como A chave de Sara , a escritora francesa Tatiana de Rosnay tira partido dessa imagem para revisitar um dos mais terríveis acontecimentos da história da segunda guerra na França. Trata-se do episódio do Velódromo de inverno, ocorrido em Paris, em 16 e 17 de julho de 1942, quando mais de 13 mil judeus foram confinados nesse espaço pela polícia francesa, antes de serem enviados aos campos de extermínio. Muitos franceses colaboraram com os naz...

Marcas de nascença - Nancy Huston

“Um adulto nada mais é do que uma criança que sofreu.” Essa é a principal idéia por trás de Marcas de Nascença, o 11º romance de Nancy Huston, autora canadense radicada na França. Partindo de uma idéia singela e genial, a escritora conta a história de uma família marcada pelo desenraizamento, pelo dilaceramento da guerra e pela busca de identidade. E o faz de uma maneira originalíssima: por meio do olhar infantil, inocente e perspicaz de quatro crianças, numa narrativa que viaja por vários pontos do planeta, começando na Califórnia do ano de 2004 e terminando na Alemanha que, entre 1944 e 1945, está em vias de perder a guerra. Do garoto californiano no início do século XXI à menina alemã dos anos 1940, pouco há em comum além de uma marca de nascença hereditária. Mas, à medida que a narração avança, fica claro que há muito mais a unir os membros de uma família além dos laços meramente sangüíneos... Marcas de Nascença é uma obra polifônica não apenas por ter quatro narradores, mas pela m...

A palavra não mora no papel

se percebo uma maçã esta maçã me constitui: o cabo levemente envergado a pele vermelha pintada de sarda sou eu a maçã agora que ela entrou no meu mundo sou eu vermelha arredondada manchada é meu o seu interior amarelado o suco que solta da carne esponjosa as pequenas sementes escondidas em suas costelas sou eu a mesma que decide pegar com as mãos a maçã e sem descascá-la, feri-la com os dentes, ferir-me com os dentes e sentir sobre a língua sua carne meu suco o som de seu desaparecimento a nossa frágil eternidade. sobre a cabeça sempre o mesmo conjunto de estrelas acesas no céu (mesmo quando há nuvens é garantido que estão lá) algumas estrelas já morreram não existem desapareceram e no entanto lá estão elas – cotidianamente – as estrelas mortas que vejo são parte da minha experiência da minha relação com o céu e eu sou elas que não existem mais que estão – no momento em que as vejo – no passado eu sou o seu futuro as estrelas mortas estão na base da minha existência na beira dos meus o...