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Charles Baudelaire - O poeta da modernidade



Poeta francês do século XIX, Charles Baudelaire viveu entre 1821 e 1867. O seu único livro de poemas, publicado em 1857, polêmico e revolucionário na época, tem como título, intrigante e significativo, Les Fleurs du mal. Palavras que remetem à beleza (fleurs, flores) que se pode extrair do mal, à beleza do quotidiano, da vida urbana moderna, que, feia, suja, injusta, horrível, se torna bela na representação pela arte. A função do poeta é definida, ao longo da leitura dos poemas, ora pela imagem do esgrimista, que luta com as palavras, tropeçando constantemente nelas, para atingir o seu ideal de beleza; ora pela imagem do sol, que traz luz e vigor a todos que atinge, penetra em choupanas e em palácios, cura doentes e deficientes. A poesia surge como a salvação da humanidade, salvação pela arte, pelo poder de transformar o feio em belo. Baudelaire é definido por Walter Benjamin como o poeta lírico do capitalismo. Crítico e teórico da arte, ao mesmo tempo, consciente e lúcido, em 1863, ele publica, no jornal Le Figaro, um ensaio intitulado "O pintor da vida moderna", em que, pela primeira vez, faz-se um estudo do conceito de modernidade, trazendo imensas contribuições aos estudos posteriores sobre esse conceito e os seus derivados, como pós-modernidade, modernidade tardia etc. Nesse texto, Baudelaire define a modernidade como O transitório, o fugidio, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável. Estava lançada a base das reflexões sobre a modernidade, ao defini-la como o polo da arte que se insere na História, na moda, no efêmero, numa intensa relação com a vida quotidiana. O outro polo, o do eterno e imutável, esse seria o do inexplicável, responsável pela duração da obra no tempo e pelo seu alcance no espaço. Considerando esse segundo polo impossível de ser aprofundado adequadamente, Baudelaire dedica-se ao estudo do primeiro polo, o da contemporaneidade da obra. Traz reflexões importantes para os estudos da arte, como quando se refere ao conceito de clássico que, segundo ele, é o que foi moderno no seu tempo. Em outras palavras, a obra que terá direito a ser considerada clássica no futuro é a que foi revolucionária no seu presente, a que trouxe algo de novo, que transformou, ou abalou as expectativas do leitor. A modernidade, na obra baudelairiana, ganha corpo e formas peculiares, tanto no ensaio, quanto na antologia poética e no livro de poemas em prosa, gênero também explorado por ele, publicado postumamente, em 1869, em Le spleen de Paris. Em toda a obra do autor, a arte apresenta-se como uma experiência estética indissociável das grandes metrópoles, na sua vida pulsante e frenética, na multidão que percorre as ruas, na solidão do poeta, perdido em meio à turba. Paris vive o apogeu do capitalismo com tudo o que isso representa de riqueza e miséria, que o poeta contempla na sua solidão. Multitude, solitude. O sentimento da solidão invade e se apodera do homem moderno, submerso na multidão. O poeta moderno seria, assim, o “homem das multidões”, próximo do flâneur ou do dandy, embora se distinga deles, na medida em que essa solidão na observação do quotidiano será a matéria prima da obra do autor. O poeta torna-se, então, segundo Baudelaire, o porta-voz da experiência urbana, arrastado pelo efêmero e pelo novo, perdendo a sua “aura” na lama das ruas, tornando-se baixo e vil como o homem comum, ao contrário do que diziam os românticos, para quem o poeta seria a luz a conduzir a humanidade para a salvação. No conceito de Baudelaire, o poeta identifica-se com o seu leitor, baixo e miserável como ele, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère. Paris torna-se o cenário da sua obra, na descrição da vida luxuosa da burguesia triunfante, mas também no contraste do luxo com a miséria das crianças de rua, abandonadas na sarjeta, olhando com cobiça, pelo vidro das janelas dos restaurantes, as iguarias que são servidas aos abastados. Ou na cena em que o menino mostra, vitorioso, o seu brinquedo, um ratinho vivo, exibido como um troféu para o menino rico, através das grades douradas de um palácio. Transforma-se em beleza a miséria da cidade, com a presença das prostitutas, mendigos e vagabundos que pululam em Paris, na representação de um capitalismo já decadente, embora no seu apogeu. Miséria e grandeza, ao mesmo tempo, a lama das ruas da cidade transforma-se em flores, através da poesia de Baudelaire, que lança uma nova luz para os estudos literários, mostrando uma beleza na arte, que os olhos da sua época não foram capazes de perceber. 



Maria Elizabeth Chaves de Mello é professora titular de literatura francesa e comparada. Atua na pós-graduação em Estudos de Literatura da UFF, orientando mestrandos, doutorandos e acolhendo pós-doutorandos. É autora de inúmeros livros e artigos acadêmicos, no Brasil e no exterior.

Comentários

  1. Interessante reflexão. Também muito interessante descobrir que Baudelaire refletiu sobre o tempo e o espaço em sua obra, contribuindo assim para diversas áreas do saber, no meu caso, a psicanálise. Que delícia de texto.

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  2. Que post maravilhoso! Beth sempre certeira!

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