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De Clarice a Mário, reflexões sobre uma tarde



Dia desses topei com um conto da Clarice Lispector aqui no blog, “Amor”, no qual a protagonista, uma mulher, “bela/recatada/do lar”, segue, de forma robótica até, uma rotina de esposa/mãe/dona de casa e, para fugir à perspectiva humana de certa forma ausente nessa rotina, cria mecanismos de fuga do período do dia quando sua “humanidade” ameaça aflorar: a tarde. É no ocaso do dia que ela sente a consciência (seu “grilo falante”) querer fazê-la pensar a vida que leva e como se anulou em prol da família e da casa. Como ficamos sabendo da história que Clarice tão perfeitamente narra, os episódios subsequentes revelam o caos em que ela é lançada quando, num lapso de tempo, em um fim de tarde, dentro de um ônibus, a consciência aflora com impacto devastador. 

Coincidentemente, reli esse conto num fim de tarde, deitada na cama onde relaxo a coluna depois de ter a louça lavada, a cozinha arrumada e um pão assando no forno. Há quase quatro meses em distanciamento social, fui lançada nessa rotina de dona de casa pela pandemia, tendo que lidar, de uma hora para outra, com atividades remotas da universidade, uma filha adolescente cega no oitavo ano com infinitas atividades escolares virtuais e uma casa que só via limpeza e só funcionava a cozinha no fim de semana. Para não me perder nessa vida robótica, é no fim da tarde, quando as luzes do dia começam a falhar e minha fotofobia ameaça acordar a enxaqueca latente, que deito minha cabeça, fecho os olhos e penso na vida e nos planos futuros (mesmo que seja o cardápio do almoço do dia seguinte). 

Enfim... Foi em um desses momentos de descanso que a leitura do conto de Clarice me levou a outro escritor, paixão e objeto de pesquisa no doutorado: Mário de Andrade. Mais especificamente, um poema escrito em 1925 e publicado em 1930 na coletânea de Remate de Males: “Louvação da tarde” – o poema VI da série “Tempo de Maria”. Nesse poema, o eu lírico, em seu momento de descanso, segue livre, “deslembrado da vida, lentamente,/ Com o pé esquecido do acelerador” (Andrade, 2000, p. 103, versos lindos, por sinal) no “forde” que o transporta por uma rodovia do interior de São Paulo, numa metáfora proposta por Antônio Candido no ensaio “O Poeta Itinerante”(Candido, 2010) como a da construção da trajetória do poeta, claramente explicitada nos sonhos apontados pelo eu lírico enquanto “a maquininha me conduz, perdido/ de mim, por entre cafezais coroados” (Andrade, 2000, p. 103). É durante esse passeio de fim de tarde que o poeta reflete sobre esse período do dia, que não ama “mais do que a manhã” (p. 104), como confessa: “Não te prefiro ao dia em que me agito” (p. 104), mas que tem elementos que merecem ser louvados: é na tarde que é possível sonhar, imaginar, fazer planos e ter desejos, pois ela é o momento de ilusão, da imaginação, do sonho, fornecendo, por isso, vasto material para a literatura, para a poesia. 

Dentro do carro, enquanto passeia, três grandes sonhos são descritos pelo eu lírico e distribuídos em seus 165 versos de ritmo cadenciado: o sonho do amor e amores do poeta, o sonho do Brasil (eterno sonho do Mário) e o sonho de desejos materiais. De certa forma, esses sonhos são caracterizados pelos sentimentos do poeta e sua trajetória, como apontado por Candido. Os amores do poeta são lembrados nessa louvação da tarde: “contigo é que imagino e escrevo/ O rodapé do meu sonhar” (p. 104), e esses sonhos de aventuras amorosas e sexuais é que dão o ritmo acelerado do poema na sequência dos versos em que o poeta exclama: “Desejemos só conquistas!/ Um poder de mulheres diferentes,/ Meninas-de-pensão, costureirinhas,/ Manicuras, artistas, datilógrafas,/ Brancaranas e louras sem escândalo,/ Desperigadas...” (p. 105). É a realidade da vida, sem quimeras, sem impossíveis, que o poeta deseja, mesmo que seja a dos livros de aventuras. 

Em correspondência com Câmara Cascudo, em 26 de junho de 1925, Mário de Andrade exclama: “Como eu vivo e vibro de ânsia brasileira!” (Moraes, 2010, p. 47). É essa ânsia pela aventura que move o eu lírico para seu outro sonho: o Brasil, o incompleto Brasil em sua formação, sonho que moveu toda a vida de Mário e que é o cerne de seu projeto de arte e literatura brasileiras. Na tarde louvada pelo poema que aqui apresento, o poeta sonha viajar, “com dinheiro sobrando” (p. 106), por “Mato Grosso grosso”, “Paraná verdinho”, “Pampas forraginosas do Rio Grande” e “praias ondejantes do Iguaçu”. E, na ânsia pela qual vibrava de entender esse país “monstruoso, tão esfacelado, tão diferente, sem nada nem siquer uma língua que ligue tudo” (como escreveu na carta a Câmara Cascudo acima citada), está o ápice do sonho do eu lírico e do artista Mário: “subir pelo Amazonas”, lugar onde “A terra em formação devora os homens” (p. 106), refrão que o poeta assume dominar seus sentidos, ideia dolorosa e constante também em Mário, e cuja presença no poema revelam a possibilidade de que os versos dessa estrofe tenham sido acrescentados após sua viagem à Amazônia em 1927, financiada pelo dinheiro adquirido com os livros escritos durante os períodos de imaginação fornecidas pela tarde (“Tarde, com os cobres feitos com teu ouro,/ Paguei subir pelo Amazonas”, p. 106).

Esses desejos de viagens para entendimento do Brasil, “esta pátria tão despatriada!” (p. 106), faz o poeta vibrar, mas a constatação desses sonhos o faz sossegar, uma espécie de poder que a tarde tem (contrariamente ao exercido na protagonista do conto de Clarice). E o sossego o leva ao sonho dos desejos materiais: um sítio rentável de café, um grande rancho com quartos para receber hóspedes, um aparelho de radiotelefonia... sonhos que bem expressam o cosmopolita ligado às tradições – ideal em que o mundo moderno se casa com a tradição e que bem representa a inspiração dos modernistas. 

“De-dia eu faço, mas de-tarde eu sonho”: eis a síntese filosófica do poema, ressaltando a função da tarde de equilibrar o sujeito para ele não confundir realidade e ficção. Entendedor dessa função, o poeta rebate: “Não és tu que me dás felicidade,/ Que esta eu crio por mim, por mim somente,/ Dirigindo sarado a concordância/ Da vida que me dou com o meu destino” (p. 107). Nesse sentido, a tarde tem o poder de trazer o sujeito de volta à realidade para ele não se perder em sonhos. 

Mas... voltando à Clarice, não é o sonho que domina a tarde de Ana e da qual foge: é a realidade, a suja e cruel e perversa realidade do mundo lá fora da sua “vida sadia”, e cuja lembrança é resetada na hora de dormir, quando, como uma vela, a chama que incendiou sua tarde de consciência se apaga, dando fim à “vertigem da bondade”. 

No momento em que esta crônica é aqui publicada, chegamos, eu aqui de Roraima, aos 120 dias de distanciamento social e o Brasil, desgovernado, se aproxima da marca de 70.000 mortos pela Covid-19. Leio a Ana de Clarice fugindo da tarde que revela a realidade e leio o poeta de Mário desfrutando dos sonhos que um passeio de carro de fim de tarde pode aflorar. Leio ambos e penso na tarde que também cai lá fora e tinge de tons rosa o céu de uma Boa Vista que celebra seus 130 anos. E reflito como a tarde, como um cego que tromba em mim, se revela cheia de mistérios e provocadora de caos a partir do momento em que traz à tona a consciência do momento em todas as suas dimensões, como quando penso em quantos choram seus queridos perdidos nessa pandemia. 

A Ana da Clarice penteia-se antes de dormir e tudo esquece. O poeta do Mário sossega consciente dono do seu destino. E eu? O que eu faço? 

Da cozinha, chega o cheiro do pão assado. 



Referências: 

ANDRADE, Mário de. Louvação da Tarde. In: Os melhores poemas de Mário de Andrade. Seleção de Gilda de Mello e Souza. São Paulo: Global, 2000, p. 103. 

CANDIDO, Antonio. O poeta itinerante. In: CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010, p. 227-246. 

LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Clarice na cabeceira. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 27-38. Disponível em: https://entrelivresethistoires.blogspot.com/2020/06/clarice-lispector-biografia.html. Acesso em 18 jun. 2020. 

MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas 1924-1944. São Paulo: Global, 2010.


Sheila Praxedes Pereira Campos é doutora em Estudos de Literatura pela UFF e professora no curso de Letras e PPGL da UFRR: 
Contato: sheila.praxedes@ufrr.br


Comentários

  1. Que primor de texto. Que final.

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  2. Vivi junto com Sheilinda a experiência do amor daquela clariceAna que finalmente se vê no olhar do cego pra si mesma ensimesmando no esforço de ser para além de si

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    1. Embarcamos todos com Sheila nessa tarde poética, não é verdade Cris Ribas?
      Obrigado pela visita e palavras !

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    2. Gratidão por embarcarem nessa experiência vespertina. Que o Amor nos atinja sempre! Precisamos disso mais do que nunca nesses tempos sombrios...

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  3. Uau!
    Que texto! Este texto, "como um cego que tromba" na gente, nos coloca para pensar no que estamos e não estamos vendo dentro do brazil.
    Estou impressionado!

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    1. Não é isso mesmo? É tempo de acordarmos da nossa "vida sadia" nesse mundo que nos sufoca... Obrigada pela leitura.

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