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CHUVA



Janeiro 1919
(Granada)

A chuva tem um vago segredo de ternura,
algo de sonolência resignada e amável,
uma música humilde se desperta com ela
que faz vibrar a alma adormecida da paisagem.


   É um beijar azul que recebe a Terra,
o mito primitivo que torna a realizar-se.
O contato já frio de céu e terra velhos
com uma mansidão de entardecer constante.


   É aurora do fruto. A que nos traz as flores 
e nos unge do sagrado espírito dos mares.
A que derrama vida sobre as sementeiras
e na alma tristeza do que não se sabe.


   A nostalgia terrível de uma vida perdida,
o fatal sentimento de ter nascido tarde,
ou a ilusão inquieta de uma manhã impossível
com a inquietude quase da cor da carne.


  O amor se desperta no gris de seu ritmo,
nosso céu interior tem um triunfo de sangue,
mas nosso otimismo converte-se em tristeza 
ao contemplar as gotas mortas nos cristais.


  E são as gotas: olhos de infinito que fitam 
o infinito branco que lhes serviu de mãe.


  Cada gota de chuva treme no cristal turvo
e lhe deixam divinas feridas de diamente.
São poetas da água que viram e que meditam
o que a multidão dos rios não sabe.


  Oh! chuva silenciosa, sem tormentas nem ventos,
chuva mansa e serena de sineta e luz suave,
chuva boa e pacífica que és, a verdadeira,
a que amorosa e triste por sobre as coisas cais!


  Oh! chuva franciscana que levas a tuas gotas
almas de fontes claras e humildes mananciais!
Quando sobre os campos desces lentamente
as rosas de meu peito com teus sons abres.


  O canto primitivo que dizes ao silêncio
e a história sonora que contas à ramagem,
comenta-os chorando meu coração deserto
em um negro e profundo pentagrama sem clave.


  Minh'alma tem tristeza de chuva serena
tristeza designada de coisas irrealizável,
tenho no horizonte um luzeiro aceso
e o coração me impede que corra a contemplá-lo.


  Oh! chuva silenciosa que as árvores amam
e és sobre a planície doçura emocionante;
dás à alma as mesmas névoas e ressonâncias 
que pões na alma adormecida da paisagem!


Federico García Lorca
Obra poética completa
Editora Martins Fontes
1996

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