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Por cima do mar

Há livros que conquistam aos poucos, nos trazendo para dentro daquele universo ficcional de forma lenta. Outros nos engolem feito furacão, e já não é possível a gente se desvencilhar daquela história. Aconteceu na leitura de Por cima do mar , de Deborah Dornellas. Vencedor do prêmio Casa de las Américas em 2019, Por cima do mar é a estreia de Dornellas na ficção. A cuidadosa edição apresenta ao longo do volume quinze imagens de sua autoria, muitas delas trazendo mulheres. O livro é bonito: dá vontade de revirá-lo várias vezes, voltar nos desenhos, conferir os poemas que os acompanham. O desejo de demorar o olhar não só nas palavras, mas nas ilustrações que surgem de forma orgânica na narrativa, fazendo do ato de leitura um jogo sensorial.  No âmbito da trama chama a atenção também a ambientação em Brasília, espaço que raras vezes encontramos na ficção brasileira recente. A cidade surge como referência constante em função de sua proximidade com a política e o poder, mas poucos fora...

Minha poesia - José Carlos Limeira

MINHA POESIA Minha poesia não se presta ao chá das cinco na academia Prefiro falá-la pelas calçadas, nas paradas de ônibus Molhada do burburinho da cidade, batuques Minha poesia se pica pela traseira do coletivo sem pagar Se esfrega no reggae Vigiando atenta a cabrocha gostosa cheia de truques Minha poesia nunca será isenta de paladar Pode se ligar no HipHop, no toque Haja vista seus versos aptos à fila do SUS, acordados antes da luz A serviço do meu povo, contando seus dramas Minha poesia pode até passar da hora na cama Na mais pura desobediência aos patrões E como podemos supor, não tem métrica nem rimas ricas Podendo ser rica de palavrões Ela é mesmo um acinte, mas acima das futricas Jamais será clássica, fugiu da sala de aula bem cedo Desassombrada e sem medo Levou porradas nos porões Já foi censurada, viajou de carona em longos anos de estrada Minha poesia está a serviço de levantes e revoluções Libertou-se da mordaça Deixou de ficar calada E se um dia não for à luta e de graça Se...

Estilhaços: antologia-cais de poesia haitiana contemporânea

Esta (quase) resenha é sobre travessias e Estilhaços . Sobre Haiti e Brasil, Haiti-Brasil-Haiti, em modo repetição. Sobre Estilhaços , estes laços, estes aços, este tudo-tanto literário que é, de fato, uma enorme pena desconhecermos. É também sobre “breviários de cantos” e sobre desatar o silêncio do poema (p.29), como escreve Frankétienne, polivalente poeta haitiano. É, sobretudo, sobre elos que apontam para encontros e constroem cais nas Américas pós-coloniais. E me ancoro nas palavras do poeta e musicista brasileiro Milton Nascimento em sua ode ao mar-caminho-cais: “Invento o mar / Invento em mim o sonhador / Para quem quer me seguir / Eu quero mais / Tenho o caminho do que sempre quis / E um Saveiro pronto pra partir / Invento o cais / E sei a vez de me lançar”.  Esta (quase) resenha é sobre travessias e Estilhaços . Estilhaço s, a primeira antologia brasileira bilíngue, francês-português, de poesia haitiana contemporânea, publicada em 2020 pelo Selo Demônio Negro. Uma antologi...

Teresa - Manuel Bandeira

  A primeira vez que vi Teresa Achei que ela tinha pernas estúpidas Achei também que a cara parecia uma perna Quando vi Teresa de novo Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. Manuel Bandeira Nasceu a 19 Abril 1886 , na cidade de Recife, Pernambuco e faleceu no dia  13 Outubro 1968 no Rio de Janeiro. Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Diário - Lúcia Facco

    Para minhas “companheiras eróticas” * Uma luz branca, outra branca, uma amarela, uma branca, um intervalo, depois tudo de novo: branca, branca, amarela, intervalo... cada vez mais rápido. Mais rápido, mais rápido... Os olhos atentos acompanhando a seqüência de luzes no túnel do metrô. Seu pensamento tentando inutilmente se concentrar naquela ordem, tentando perceber alguma mudança: branca, branca, amarela, branca, intervalo... até que só viu um grande escuro e depois a luz do dia. Mas é impossível prestar realmente atenção às tais luzes e ao sol que depois de dias de chuva finalmente aparece suave, mas quente o suficiente para fazê-la tirar o casaco, não sem antes reparar na blusa que está usando. Podia ser aquela furadinha nas costas (malditas traças!) e aí o jeito seria agüentar o calor. Não é. Está vestindo a amarela que ganhou de aniversário da Márcia. Márcia, Márcia, mar se amar, se amar, se amar. Culpa dela também. Uma daquelas amigas que povoam as suas fantasias e...

Discurso fúnebre para Honoré de Balzac, por Victor Hugo

Cavalheiros: O homem que acaba de descer a esta tumba era um daqueles a quem a dor pública acompanha seu cortejo fúnebre. Nos tempos por que passamos, todas as ficções se desvanecem. Doravante, os olhos não se fixam mais sobre as cabeças reinantes, mas sobre as cabeças que pensam, e o país inteiro sofre um abalo quando uma dessas cabeças desaparece. Hoje, o luto popular é provocado pela morte de um homem de talento; o luto nacional é a morte de um homem de gênio. Cavalheiros, o nome de Balzac se incluirá no rastro luminoso que nossa época irá deixar para o futuro. Monsieur de Balzac fazia parte dessa pujante geração de escritores do século XIX que surgiu depois de Napoleão, do mesmo modo que a ilustre plêiade do século XVII depois de Richelieu, tal como se, no desenvolvimento da civilização, houvesse uma lei que faça suceder os que dominaram através do gládio por aqueles que dominam pelo espírito. Monsieur de Balzac era um dos primeiros entre os maiores e um dos mais altos entre os mel...

Saber Viver

Não sei… se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura… enquanto durar. Cora Coralina 1965