Pular para o conteúdo principal

Postagens

Leitura #1 Blog Entre Livres et Histoires - 2021

  "O que sustentava o inferno era só duas coisas: as almas dos mortos condenados e a ruindade dos vivos." Frase retirada de umas das passagens do surpreendente livro "Fiados na esquina do céu com o inferno" do pernambucano @eurydonavio Definido por alguns críticos como "Sertanismo fantástico", o livro de Eury é um convite ao mergulho no sertão nordestino na perspectiva da cultura, da linguagem regional, das crenças, bem como no comportamento dos personagens tão bem construídos pelo autor. Sem dar muito spoiler, temos a história do Matador, homem atormentado por um pesadelo, que ao encontrar um sujeito esquisito (que ele chamará de La Ursa - personagem conhecido do carnaval de Pernambuco) em uma bodega na esquina do céu com o inferno", faz um pacto para matar o Atentador (ou o "cão Fazedor de Seca") " antes que acabe o dia de São José. Se conseguir cumprir sua missão, o Matador colocará um ponto final na batalha travada entre a chuva e a...

S. e o jogo da ficção

  Até hoje me surpreendo quando vejo meus alunos, uma geração que cresceu na era da informática, levando adiante o fetiche pelo livro de papel. Ainda lembro bem da sombra que pairou sobre o mundo da impressão com o lançamento dos primeiros modelos populares de e-reader . Veiculavam que o papel seria, em breve, coisa do passado. Os anos passaram, a acessibilidade digital se multiplicou exponencialmente, mas as gráficas não deixaram de rodar. Não sei se são as capas coloridas, o cheiro do papel, as memórias sedimentadas em um livro de sebo ou o efeito mágico de ver uma estante organizada, mas algo atrai e prende o ser humano à leitura analógica. E, por isso, eu sempre me senti algo herege nesse culto literário: sempre fui um adepto do PDF. Com a chegada do Kindle, reforcei ainda mais o meu gosto pela praticidade do digital, raramente adquirindo cópias físicas. Ao menos até conhecer o livro que despertou em mim esse fetiche atávico pelo papel: S. , de Doug Dorst e J. J. Abrams. Pa...

A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece nos olhos das mulheres a lua fêmea, semelhante nossa, em vigília atenta vigia a nossa memória. A noite não adormece nos olhos das mulheres, há mais olhos que sono onde lágrimas suspensas virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças. A noite não adormece nos olhos das mulheres vaginas abertas retêm e expulsam a vida donde Ainás, Nzingas, Ngambeles e outras meninas luas afastam delas e de nós os nossos cálices de lágrimas. A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher de nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tônico pacientemente cose a rede de nossa milenar resistência. Conceição Evaristo*, em Cadernos Negros, vol. 19. *Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1946). Romancista, contista, poeta, professora e doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Criou o conceito escrevivência, ou a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, da experiência de vida da própria a...

O último poema

Assim eu queria o meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. Manuel Bandeira

O encontro com o Pequeno Príncipe e o carneiro dentro da caixa: algumas reflexões sobre o ensino da literatura infantil

  Se você, como eu, é professor(a) ou apenas se interessa pela literatura voltada à infância, te convido a trocar experiências literárias a partir de minhas percepções leitoras sobre a obra O Pequeno Príncipe , de autoria do francês Antoine de Saint-Exupéry.  Não é minha intenção aqui analisar todos os elementos e personagens do livro, mas apresentar apontamentos de um fragmento da narrativa, a fim de refletir sobre as interlocuções existentes entre os acontecimentos narrados e o ensino da leitura literária.  O Pequeno Príncipe narra a história de uma amizade entre um piloto, frustrado com as pessoas que não compreenderam seus desenhos na infância, e um príncipe que habita em um asteroide no espaço. O título original do livro é Le Petit Prince , e foi publicado pela primeira vez em 1943, nos Estados Unidos.  Em certa viagem, o piloto, que é o narrador a história, é obrigado a fazer um pouso emergencial no deserto do Saara, devido a uma pane no motor. Na primeira noi...

Live - Balzac por Stefan Zweig - 24.02.2021

CONVITE Bate-papo amanhã, às 20h00, no canal YouTube Café do Escritor Falarei um pouco sobre como  o escritor francês, considerado pai do realismo francês, foi retratado pelo escritor austríaco Stefan Zweig. Não percam! Link para LIVE no YouTube:   https://youtu.be/SinQWBAT0_o  

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos  a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente igual a única coisa que não muda porque muda sempre quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio desta praia nesta tarde quantas palavras até esta palavra,  esta Ana Martins Marques